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PALOMINO

Danielle  Steel

 

Tradução de LUIS MANUEL DE CAMPOS DIONÍSIO

Circulo de Leitores

 

TÍTULO riginal: PALOMINO

Fotografia da capa: O COMSTOCK, 1998

Copyright de 1981 by Danielle Steel, Impresso e encadernado para Círculo de Leitores por Printer Portuguesa, Casais de Mem Martins, Rio de Mouro

em Dezembro de 2000 - Número de edição: 4997 ;Depósito legal número 156 868/00 ISBN 972-42-2389-2

 

Para o meu pequeno cowboy favorito, Maxx... Felizes cavalgadas! Com todo o meu amor,

D. S.

 

 

Cavalgar pelas colinas, num belo cavalo, com um sonho à procura de Amor, antes do pôr do sol, é isso que é viver... e encontrá-lo é o culminar de toda uma

Vida.

 

 

1

Samantha subia apressadamente os degraus da casa de fachada de arenito pardo, na Rua 63 Este, enfrentando, de olhos semicerrados, a forte chuvada puxada a vento, que estava a transformar-se rapidamente em granizo. Este fustigava-lhe o rosto, provocando ardor nos olhos. Fazia um som ronronante, como que a incitar-se a si própria a prosseguir. Então, parou, arquejante, e enfiou a chave na fechadura, mas não conseguiu fazê-la rodar. Finalmente, a porta abriu-se, e Samantha viu-se envolvida pelo calor do vestíbulo. Manteve-se no mesmo sítio durante um longo instante, a sacudir a humidade dos compridos cabelos louro-prateados. Era uma cor rara, mais parecia um emaranhado de fios de prata e ouro puro. Em criança, chamavam-lhe "cabecita de estopa", o que ela detestava; na adolescência e na casa dos vinte, os cabelos atingiram o seu máximo esplendor. Agora, aos trinta, já se habituara aos comentários; quando certa vez John lhe dissera que parecia uma princesa dos contos de fadas, riu-se, os olhos a dançar de um lado para o outro, o rosto, belo e de fino recorte, em contraste com os seios volumosos e as ancas ligeiramente roliças. As pernas eram compridas e magras.

Era uma mulher de mil contrastes: o olhar vivo e perspicaz, num súbito contraste com os sensuais lábios carnudos, os ombros estreitos, os seios volumosos, as mãos compridas e graciosas; a voz suave em oposição com a precisão inteligente das palavras. De certo modo, era de esperar que Samantha Taylor possuísse uma maneira de falar arrastada, que passasse o tempo deitada, com ar voluptuoso, numa espreguiçadeira de veludo, as formas envoltas num roupão adornado com penas de marabu. Em vez disso, era dada a calças de ganga e vagueava pelas salas a passos largos. Transbordava de vida e energia, à excepção daquela e das últimas cem noites.

Agora, tal como acontecia desde Agosto, encontrava-se em silêncio, imóvel, expectante, a água da chuva a pingar das pontas dos cabelos, à escuta... Mas de quê? Não havia mais ninguém. Estava só na velha casa. Os donos tinham partido

para Londres seis meses antes e o dúplex fora emprestado a um sobrinho que quase nunca se encontrava lá. Repórter da Paris-Match, passava mais tempo em Nova Orleães, Los Angeles e Chicago do que em Nova Iorque. E depois havia o último andar. O domínio de Samantha... só dela agora, embora já tivesse sido também de John, um apartamento que ambos haviam arranjado com tanto carinho e devoção. Todos os centímetros, bolas!, pensou Samantha mais uma vez, franzindo ligeiramente o sobrolho, ao mesmo tempo que colocava o chapéu-de-chuva na entrada e começava a subir lentamente as escadas. Detestava vir para casa e fazia o possível para chegar tarde todas as noites. Eram quase nove horas. Chegara mais tarde do que na noite anterior. Nem sequer tinha fome. Perdera-a desde que recebera a notícia.

- Tu, o quê? - Samantha olhou-o fixamente, horrorizada, numa tórrida noite de Agosto. O aparelho de ar condicionado avariara e a atmosfera estava sufocante. Viera recebê-lo à entrada, trazendo apenas umas cuecas de renda branca e um pequeno soutien lilás sobre a pele. - Enlouqueceste?

- Não, não enlouqueci. - John fitou-a com ar embaraçado e tenso. Ainda nessa manhã haviam feito amor. A beleza loura de viquingue parecia agora... inatingível para Samantha. Era uma pessoa que nem ela parecia conhecer. - Não posso continuar a mentir-te, Sam. Precisava de te contar. Tenho de sair de casa.

Durante um momento que pareceram horas, Samantha limitou-se a olhá-lo fixamente. Ele não podia estar a falar a sério. Só podia estar a brincar. O absurdo da questão é que falava mesmo muito a sério. Via-se no ar de agonia estampado no rosto. Samantha encaminhou-se lentamente na direcção de John, mas ele abanou a cabeça e virou-se.

- Não faças isso... Por favor, não. - Os ombros de John estremeceram ligeiramente e, pela primeira vez desde que ele começara a falar, Samantha sentiu alguma pena a trespassá-la como uma dor lancinante. Mas por que razão sentia pena? Porquê? Como conseguia sentir pena dele depois daquilo que acabara de ouvir?

- Amá-la?

Os ombros que ela amara tanto limitaram-se a agitar-se ainda mais, e John não deu qualquer resposta. A pena começava a desvanecer-se quando se virou para ele. A raiva fervilhava-lhe na alma.

- Responde-me, bolas! - Deu-lhe um violento puxão no ombro, e ele virou-se e fitou-a nos olhos.

- Amo. Acho que sim. Mas, Sam, não sei. A única coisa que sei é que tenho de sair daqui por uns tempos para poder arrumar as ideias.

Samantha atravessou silenciosamente a sala, parando ao alcançar a outra ponta do tapete francês, que parecia uma carpete de flores sob os seus pés nus. Havia violetas minúsculas e pequenas rosas cor de areia, além de uma miríade de flores ainda mais pequenas, apenas visíveis de perto. A impressão global era a de uma mescla de tons rosados, vermelhos e purpúreos, combinando com as suaves tonalidades de cor-de-rosa, cor de malva e verde-forte dos sofás e cadeiras que ocupavam a enorme sala apainelada. A casa era antiga e tinha uma fachada de arenito pardo; o último andar era deles. Samantha levara dois anos a decorá-lo, com amor, adquirindo bonitas peças de mobiliário estilo Luís XIV, em antiquários e leilões na Sotheby Parke Bernet. Os tecidos franceses, as jarras sempre repletas de flores naturais e os quadros impressionistas davam um toque geral muito elegante ao apartamento, de nítida feição europeia. Porém, não era a beleza do local que Samantha apreciava naquele instante; de costas voltadas para o marido, questionava-se sobre a possibilidade de as coisas voltarem a ser como dantes. Era como se um deles acabasse de morrer e a vida tivesse ficado subitamente destruída e irrecuperável. E tudo com um punhado de palavras bem escolhidas.

- Porque não me contaste há mais tempo? - Samantha voltou-se, o rosto com ar acusador.

- Eu... - balbuciou John, incapaz de prosseguir. Não havia nada que conseguisse dizer para compor a situação, para atenuar a dor que acabara de infligir na mulher que tanto amara. Sete anos fora tempo mais do que suficiente para os unir um ao outro para sempre, mas não unira. Tudo descarrilara durante a cobertura das eleições no ano anterior. Tencionara acabar com a relação quando regressassem de Washington. Fora essa a sua intenção. Liz, porém, não o deixara, e a relação continuou, de vento em popa... até agora, momento em que o encostara à parede: estava grávida e recusava-se a abortar. - Não sabia o que dizer-te, Sam. Não sabia... e pensava que...

- Estou-me nas tintas para aquilo que pensavas! - Subitamente, Samantha lançou um olhar penetrante ao homem que conhecera e amara durante onze anos. Haviam começado a namorar aos dezanove anos. Fora o primeiro homem com quem dormira, quando estavam em Yale. Possuía uma imponente compleição física, era louro e bonito, um herói do futebol, o calmeirão do campus, o louro de quem todos gostavam, inclusive Sam, que o adorava desde o primeiro momento em que se conheceram. - Sabes o que eu pensava, seu filho da puta? Que me eras fiel. Era isso que pensava. Que te interessavas por mim! - A voz vacilou pela primeira vez desde que ele pronunciara as horríveis palavras. - Pensava que me amavas.

- E amo. - Havia lágrimas a correr lentamente pelo rosto de John ao articular estas palavras.

- Ah, sim? - gritou Samantha, sentindo que ele lhe arrancara o coração e o atirara para o chão. - Então porque vais sair de casa? Por que razão chegaste aqui como um louco e, quando perguntei como te correra o dia, respondeste que tinhas um caso com a Liz Jones e que ias sair de casa? - A voz começava a ficar cada vez mais histérica à medida que avançava para ele. - Podes explicar-me isso? E há quanto tempo é que andas metido com ela? Raios te partam, John Taylor... Raios te partam...

Completamente fora de si, investiu contra ele, de punhos fechados, agarrou-o pelos cabelos e tentou esmurrá-lo na cara. John dominou-a com facilidade, puxando-lhe os braços para trás das costas, ao mesmo tempo que a forçava a deitar no chão, onde a aconchegou entre os braços.

- Oh, querida, lamento tanto...

- Lamentas? - Sam soltou um grito que era um misto de riso e de choro enquanto se debatia para se libertar. - Chegas a casa e anuncias que vais deixar-me por outra pessoa, e ainda dizes que "lamentas"? Meu Deus... - Respirou fundo e tentou libertar-se dele. - Larga-me, bolas! - Fitou-o, com ar destroçado; quando John viu que estava mais calma, soltou-a dos braços. Ainda arquejante, encaminhou-se, a passo lento, para o sofá de veludo verde-escuro e sentou-se. Pareceu subitamente mais pequena e mais nova, os cabelos louros caídos para a frente, o rosto enterrado entre as mãos. Então, levantou lentamente a cabeça, os olhos mareados de lágrimas. - Ama-la mesmo? - Fosse como fosse, custava-lhe a acreditar.

- Penso que sim. - John fez um ligeiro gesto afirmativo com a cabeça. - O pior é que amo as duas.

- Porquê? - Samantha desviou os olhos dele e fixou-os num espaço vazio, percebendo cada vez menos o que estava a acontecer. - O que falta entre nós?

John pôs-se de pé. Tinha de lhe dizer. Ela precisava de saber. Errara ao esconder-lhe a situação durante tanto tempo.

- Aconteceu durante a cobertura das eleições do ano passado.

- E tem-se mantido desde então? - Os olhos de Samantha esbugalharam-se enquanto limpava as lágrimas com as costas da mão. - Dez meses, e eu não sabia?

John fez um sinal afirmativo com a cabeça sem articular qualquer palavra.

- Meu Deus! - Samantha lançou-lhe, então, um olhar de estranheza. - Porquê agora? Porque é que resolveste contar-me a situação hoje? Porque não deixas de a ver? Porque não tentas salvar o casamento que já mantemos há mais de sete anos? Que raio é que queres dizer com "tenho um caso e vou sair de casa"? É só isso que o casamento significa para ti?

Samantha recomeçou a gritar e John encolheu-se. Detestava aquele tipo de situações, detestava fazê-la sofrer, mas sabia que tinha mesmo de a deixar. Liz possuía uma qualidade que ele desejava desesperadamente, de que precisava e que apreciava: a discrição. Ele e Samantha eram demasiado parecidos nalguns aspectos: espectaculares, perspicazes e belos, numa constante exposição pública. Em Liz, gostava do espírito despretensioso, da inteligência menos deslumbrante, do estilo calmo, da disposição de ficar em segundo plano, na sombra, ao mesmo tempo que o ajudava a ser aquilo que ele era. Completava-o na perfeição, e era por isso que trabalhavam tão bem em equipa. Perante as câmaras, a dar as notícias, John era sem dúvida a estrela; Liz, porém, ajudava-o a compor essa imagem. Era isso que ele apreciava. Ela era muito mais calma do que Samantha, muito menos brilhante e muito menos irrequieta. John descobrira, finalmente, o quanto isso representava para si. Não se sentia ansioso quando estava com ela, não seria obrigado a competir. Era, automaticamente, a estrela.

E havia mais uma coisa a acrescentar a tudo isso. Liz estava grávida e a criança era sua. Desejava-a mais do que tudo. Um filho para brincar, amar e ensinar a jogar futebol. Era algo que sempre desejara e que Samantha não podia dar-lhe. Haviam consultado vários médicos para tentar descobrir o problema; durante três anos. Samantha era estéril. Não podia ter filhos.

- Porquê agora, 'John?

A voz de Samantha arrastou-o de novo para o presente, e ele limitou-se a abanar ligeiramente a cabeça.

- Não interessa. Não é importante. Tinha de te dizer. Não há dias bons para uma coisa destas.

- Não estás disposto a acabar com essa relação? - Samantha continuava a pressioná-lo e estava consciente disso, mas tinha de o fazer. Ainda não entendia o que se passara e porquê. Por que razão, naquele dia sufocante, o marido chegara a casa, vindo da estação de televisão onde apresentava o noticiário todas as noites, e anunciara que ia abandoná-la por outra mulher? - Vais deixar de a ver?

John abanou lentamente a cabeça.

- Não, Sam, não vou.

- Porquê? - A voz de Samantha embargou-se, ganhou um tom acriançado, e uma nova torrente de lágrimas correu-lhe pelo rosto. - O que é que ela tem que eu não tenho? É pouco atraente e é chata... e tu... tu sempre disseste que não gostavas dela... que detestavas trabalhar com ela e... - Não conseguiu prosseguir; John olhava-a, quase sentindo a dor dela como sua.

- Tenho de ir, Sam.

12

Porquê? - Samantha ficou fora de si quando John se encaminhou para o quarto para fazer as malas.

- Porque tenho, só isso. Olha, não é correcto da minha parte ficar e, deixar-te neste estado.

- Fica, por favor... - O pânico, como uma besta terrível, tomava conta da voz de Samantha. - Vamos compor as coisas... a sério... por favor... John... - As lágrimas escorriam-lhe pelo rosto. John ficou subitamente com ar carregado e distante enquanto continuava a fazer as malas. Andava num autêntico frenesi, como se tivesse de partir o mais depressa possível, antes que ficasse também destroçado.

Então, de repente, virou-se para Samantha.

- Pára com isso, bolas! Pára... Sam, por favor...

- Por favor, o quê? Por favor, não chores, porque o meu marido vai deixar-me ao fim de sete anos, onze se contarmos o tempo em Yale antes de nos casarmos? Ou: por favor, não te sintas culpado por me deixares por uma puta qualquer? É isso que queres, John? Que eu te deseje sorte e te ajude a fazer as malas? Meu Deus, chegas aqui e destróis toda a minha vida, e agora... o que queres de mim? Que seja compreensiva? Bom, isso não posso ser. A única coisa que posso fazer é chorar e, se tiver de ser, suplicar-te... suplicar-te, estás a ouvir ... ? - Ao proferir aquelas palavras, deixou-se cair numa cadeira e começou a soluçar de novo. Com mão firme, John fechou a mala, para dentro da qual atirara meia dúzia de camisas, um par de ténis, dois pares de sapatos e um fato de Verão, metade deste caindo para fora da mala. Pegou num punhado de gravatas. Era impossível. Não conseguia pensar direito e fazer as malas em paz.

- Volto na segunda-feira, quando estiveres a trabalhar

- Não vou trabalhar.

- Porquê?

John, de cabelos desgrenhados, ostentava um ar perturbado; Samantha levantou os olhos para ele e esboçou um leve sorriso por entre as lágrimas.

- Porque o meu marido acabou de me deixar, seu imbecil, e não acredito que esteja com disposição para ir trabalhar na segunda-feira. Importas-te?

John não sorrira, não pusera um ar menos grave. Limi-

tou-se a olhar para ela, um pouco embaraçado, fez um gesto afirmativo com a cabeça e saiu rapidamente pela porta. Deixou cair duas gravatas, que Samantha apanhou, segurando-as na mão durante muito tempo, a chorar, prostrada em cima

do sofá.

Chorara muitas vezes em cima do sofá desde Agosto, mas John não voltara. Em Outubro, ele fora passar um fim-de-semana prolongado na República Dominicana, conseguira o divórcio e dez dias depois casara-se com Liz. Samantha sabia agora que Liz estava grávida; quando ouviu a notícia pela primeira vez, sentiu-se trespassada por uma lâmina. Liz dera a novidade certa noite, na televisão, e Sam ficara de boca aberta, chocada. Então fora por isso que ele a deixara. Por uma criança... um bebé... um filho que ela não poderia dar-lhe. No entanto, ao fim de algum tempo, chegara à conclusão de que não fora só isso.

Houvera muitas coisas no casamento que Samantha não vira ou não quisera ver, porque estava perdidamente apaixonada pelo marido: a rivalidade que se estabelecera entre os dois e a insegurança de John perante o sucesso dela. Apesar de ser um dos principais noticiaristas do país e de as pessoas se amontoarem para lhe pedir um autógrafo, John parecera sempre sentir receio de o sucesso ser efémero, de ser substituído e de os índices de audiência poderem alterar a sua vida. Para Samantha, era diferente. Como subdirectora criativa da segunda maior agência de publicidade do país, a sua situação era delicada, mas menos do que a dele. Numa profissão também instável, possuía, no entanto, um rol enorme de campanhas premiadas atrás de si que a tornavam menos vulnerável aos ventos de mudança. Durante todo o Outono, sozinha no apartamento, recordara fragmentos de conversas, coisas que ele dissera...

"Meu Deus, Sam, conseguiste chegar ao topo aos trinta. Chiça! Com os prémios fizeste mais dinheiro do que eu." Sabia agora que isso também o incomodara. Mas que poderia ela ter feito? Desistir? Por que razão? No seu caso, porque não trabalhar? Não podiam ter filhos e John não queria adoptar um. "Não é a mesma coisa se não for teu." "Mas é como se fosse. Olha, podíamos adoptar um recém-nascido, somos novos e faríamos o

melhor que pudésemos . Um bébé significaria tanto para nós, querido, pensa no assunto ... " Os olhos de Samantha brilhavam sempre que discutiam o assunto, os dele ficavam embaciados, depois abanava a cabeça. A resposta para a questão da adopção era sempre não. Agora não precisava de se preocupar mais com o assunto. Dentro de mais três meses, teria o seu primeiro filho. O seu próprio filho. Para Samantha, era como um soco no estômago.

Tentou não pensar no assunto quando chegou ao último patamar e abriu a porta. O apartamento ganhara um cheiro a bafio nos últimos dias. As janelas encontravam-se sempre fechadas, o calor era muito, as plantas estavam todas a morrer e nem as deitara fora nem mandara alguém tratar delas. Todo o apartamento exibia um ar de desleixo, de abandono, como se servisse apenas para alguém mudar de roupa. Desde Setembro, apenas se servira da cozinha para fazer café. Não tomava pequeno-almoço e almoçava, regra geral, com clientes ou outros executivos da Crane, Harper & Laub; habitualmente, esquecia-se de jantar. Se estava a morrer de fome, comprava uma sanduíche no caminho para casa, comia-a embrulhada no papel encerado, equilibrando-a em cima de um joelho, enquanto assistia ao noticiário na televisão. Não usava qualquer louça desde o Verão, mas também não se importava. Deixara praticamente de gozar a vida desde essa altura, e às vezes interrogava-se se alguma vez o voltaria a fazer. Só pensava no que acontecera, na forma como John lhe dera a notícia, na razão por que ele a deixara e no facto de já não lhe pertencer. Alternava o sentimento de dor com o de raiva, até que, finalmente, no dia de Acção de Graças, os nervos estavam tão esfrangalhados que ficou como que paralisada. A maior campanha da sua carreira quase ia por água abaixo. Duas semanas antes vira-se obrigada a fechar-se no escritório a descansar. Por instantes, dera a impressão de ir ter um ataque de nervos ou desmaiar; talvez abraçar alguém e desfazer-se em lágrimas. No entanto, era como se já não existisse ninguém com quem mantivesse alguma ligação ou que gostasse dela- O pai morrera quando ela frequentava a faculdade, a mãe vivia em Atlanta com um homem considerado atraente mas de quem Samantha não gostava. Era médico e extrema-

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mente vaidoso. Pelo menos, a mãe estava feliz. De qualquer maneira, Samantha nunca fora muito chegada à mãe e não seria aí que procuraria auxílio. Só lhe falara do divórcio em Novembro, quando a mãe lhe telefonara certa noite e a encontrara lavada em lágrimas. Fora simpática, mas pouco mais; nada que fortalecesse os laços entre as duas. já era demasiado tarde. Além disso, não era pela mãe que ansiava, mas pelo marido, pelo homem com quem partilhara o leito, que amara e com quem se divertira nos últimos onze anos; o homem que conhecia melhor do que a própria pele, que a fazia feliz de manhã e lhe dava segurança à noite. Agora, porém, ele partira. Essa lembrança nunca deixava de lhe trazer lágrimas aos olhos e desolação à alma.

Naquela noite, com frio e cansada como estava, Samantha nem sequer pensou no assunto. Tirou o casaco e pendurou-o a secar na casa de banho, descalçou as botas e passou a escova pelos cabelos. Mirou-se ao espelho sem olhar para o rosto. Quando agora olhava para si, só via uma massa informe de pele, dois olhos tristes e uma comprida cabeleira loura. Despiu as peças de roupa, uma após outra, deixando cair a saia de caxemira preta e a blusa de seda preta e branca que levara para o trabalho. As botas que descalçara e atirara para o chão tinham a marca Celine de Paris, o cachecol era de um padrão geométrico preto e branco, Hermés. Pusera enormes brincos de pérolas e ônix e prendera o cabelo atrás, junto do pescoço. O casaco, que pendurara a seu lado, era vermelho-vivo. Mesmo no seu atordoante estado de carência e dor, Samantha Taylor era uma mulher bonita, ou como o director criativo da agência dizia: "Uma mulher atraente como o raio." Abriu a torneira, e uma torrente de água quente deslizou para a banheira verde. Outrora, a casa de banho encontrava-se cheia de plantas e flores de cores vivas. No Verão, gostava de lá ter amores-perfeitos, violetas e gerânios. Havia pequenas violetas no papel de parede, contrastando com a porcelana francesa, de um verde-esmeralda brilhante. Agora, tal como no resto do apartamento, faltava-lhe brilho. A mulher da limpeza mantinha tudo sem pó, mas era impossível a alguém que vinha três vezes por semana dar um ar cuidado à casa. Tanto esta como a própria Samantha haviam perdido o brilho,

aquele que só surge com um toque doce e uma mão delicada, a rica pátina de carinho que se manifesta de inúmeras formas nas mulheres.

Quando a -banheira ficou cheia de água fumegante, Sa

mantha meteu-se lentamente dentro dela, deitou-se e fechou

os olhos. Por instantes, sentiu-se flutuar, como se não existisse

passado, nem futuro, nem receios, nem preocupações. Então,

pouco a pouco, o presente invadiu-lhe o espírito. A campa

nha em que actualmente trabalhava estava a ser um desastre.

Relacionava-se com uma linha de carros que a agencia cobi

çava há já uma década, e era todo o projecto que estava em

causa. Apresentara uma série de sugestões relativas a cavalos,

com anúncios a serem filmados em campo aberto ou em ran

chos, com um homem ou uma mulher de ar rural a fazer fu

ror. Porém, o coração não estava na campanha, e tinha cons

ciência disso. Perguntava a si mesma durante quanto tempo

mais é que aquela sensação de abatimento iria manter-se, co

mo se o motor trabalhasse e o carro não passasse da primeira

velocidade. Sentia-se arrastar, como se o cabelo, as mãos e

os pés fossem de chumbo * - Quando saiu da banheira, com os

longos cabelos sedosos presos no alto da cabeça, embrulhou

-se cuidadosamente num enorme lençol lilás e encaminhou

-se, descalça, para o quarto. Ali, sentia-se de novo a atmosfera

de um jardim, uma enorme cama de quatro colunas coberta

de bordados a branco e uma colcha cheia de flores amarelas,

predominando o amarelo luminoso, os folhos e os franzidos.

Adorara aquele quarto aquando da decoração do apartamen

to; agora detestava-o, ao deitar-se, noite após noite, sozinha.

Não se devia ao facto de não ter tido pretendentes. Tivera-os, mas a interminável sensação de abatimento paralisava-a. Não desejava nem gostava de ninguém. Era como se lhe tivessem cortado a comunicação com o mundo exterior. Então, quando se sentou na berma da cama e bocejou, lembrando-se de que só comera uma sanduíche de ovo e salada ao almoço e não tomara o pequeno-almoço nem jantara, deu um pulo ao ouvir a campainha no piso de baixo. Por instantes, pensou em não responder; depois, deixou cair a toalha, procurou apressadamente o robe acolchoado de cetim azul-claro e correu para o intercomunicador, enquanto se ouvia novamente a campainha.

- Sim?

17

Jack, o Estripador! Posso subir?

Durante uma fracção de segundo, não reconheceu a voz no intercomunicador. Então, de repente, soltou uma gargalhada, parecendo-se mais consigo mesma. Os olhos iluminaram-se, as faces ostentando ainda o rubor saudável do banho quente. Há vários meses que não parecia tão jovem.

- O que estás aqui a fazer, Charlie? - gritou Samantha para o intercomunicador na parede.

- Estou a ficar com o rabo congelado. Deixas-me entrar?

Samantha soltou nova gargalhada, premiu rapidamente o botão do intercomunicador e, pouco depois, ouviu-se o som de Charles a subir apressadamente as escadas. Quando alcançou o vão da porta, Charles Peterson parecia mais um lenhador do que o director artístico da Crane, Harper & Laub, com a aparência de um rapaz de vinte e tal anos em vez dos trinta e sete que já atingira. Possuía um rosto cheio e acriançado, olhos castanhos e risonhos, cabelos escuros e desgrenhados, e barba cerrada, que surgia agora salpicada de granizo.

- Arranjas-me uma toalha? - pediu, arquejante, mais do frio e da chuva do que das escadas.

Samantha foi rapidamente buscar uma toalha grossa lilás à casa de banho e deu-lha. Charles despiu o casaco e secou o cabelo e a barba. Uma pequena torrente de água gelada escorria do enorme chapéu de cowboy para cima do tapete de estilo francês.

- A fazer chichi no tapete, Charlie?

- A propósito... arranjas um cafezinho?

- Claro. - Samantha olhou-o de forma estranha, interrogando-se se haveria algum problema. Charles viera visitá-la uma ou duas vezes, mas geralmente só quando existia algum assunto importante. - Aconteceu alguma coisa com a nova campanha? - Olhou-o da cozinha com ar preocupado. Ele sorriu e abanou a cabeça, enquanto se dirigia para o local onde ela se encontrava.

- Não. E vai tudo correr bem. Estás no bom caminho. Vai ser fabuloso, Sam.

Samantha esboçou um ténue sorriso enquanto lhe servia o café.

- Também acho que sim. - Trocaram um longo e terno sorriso. Eram amigos há quase cinco anos, haviam partilhado inúmeras campanhas, prémios e brincadeiras, trabalhando até às quatro da manhã para coordenar a apresentação ao cliente e aos contabilistas no dia seguinte. Eram os meninos-bonitos de Harvey Maxwell, o director criativo titular da empresa. Harvey detinha o lugar há vários anos. Descobrira Charlie numa agência e contratara Samantha noutra. Deixava-os pensar pelas próprias cabeças e ficava feliz ao ver aquilo que eles criavam. Mais ano menos ano, retirar-se-ia, e toda a gente apostava, inclusive Samantha, que seria ela a substituí-lo. Directora criativa aos trinta e um anos não era mau de todo. - O que é que se passa, garoto? Não te vejo desde esta manhã. Como é que está a correr aquilo do Wurtzheimer?

- Bem... - Levantou os braços com uma expressão de aprovação. - O que podes tu fazer por um dos maiores armazéns em Saint Louis que tem muita massa e nenhum gosto?

- E o tema do cisne de que falámos a semana passada?

- Detestaram. Querem algo com mais impacte. Os cisnes não têm impacte.

Sam revirou os olhos e sentou-se à enorme mesa de madeira maciça, enquanto Charlie esparramava o seu corpo magro numa das cadeiras à &ente dela. Era estranho, nunca sentira atracção por Charlie Peterson, nem por uma única vez em todos os anos em que trabalhavam, viajavam, dormiam nos aviões e conversavam um com o outro até altas horas da noite. Ele era o irmão, a alma gémea, o amigo. Tinha uma mulher que ela adorava quase tanto como ele. Melinda era

perfeita para Charlie. Decorara-lhes o enorme e simpático apartamento na Rua 81 Este com tapeçarias de cores vivas e cestos maravilhosamente entre tecidos. Os móveis eram todos de mogno escuro e para onde quer que se olhasse havia pequenos objectos de arte de grande beleza, minúsculos tesouros que Melinda descobrira e trouxera para casa, tudo desde conchas exóticas apanhadas no Taiti, até a uma bola perfeita de mármore que era pertença dos filhos. Possuíam três, todos Parecidos com Charlie, um canzarrão de poucas maneiras chamado Rags e um enorme jipe que Charlie conduzia há

dez anos. Melinda era também uma artista, mas nunca fora "corrompida" pelo mundo competitivo do dia-a-dia. Trabalhava num estúdio e fizera duas exposições de grande sucesso dos seus trabalhos nos últimos anos. Em vários aspectos, era muito diferente de Samantha, embora as duas tivessem em comum uma doçura que se escondia sob uma jactância que Charlie apreciava em ambas. À sua maneira, adorava Samantha, e ficara "pior do que estragado" com o que John fizera. Nunca gostara dele e sempre o considerara um sacana egocêntrico. A súbita deserção de John em relação a Samantha e o subsequente casamento com Liz Jones provara que Charlie tinha razão. Melinda tentara compreender ambas as partes, mas Charlie não se dera a esse trabalho. Estava demasiado preocupado com Sam, cujo estado de saúde se deteriorara nos últimos quatro meses, e isso era mais do que evidente. O trabalho sofrera. Os olhos haviam perdido a vida. O rosto tinha um ar doente.

- Então, madame? Espero que não leves a mal a minha visita tão tardia.

- Claro que não. - Samantha sorriu enquanto lhe servia uma chávena de café. - Só me pergunto o que te trouxe aqui. Saber como é que estou?

- Talvez. - Os olhos dóceis de Charlie sobressaíam sobre a barba escura. - Importas-te, Sam?

Samantha lançou-lhe um olhar triste e Charlie sentiu vontade de a tomar nos braços.

- Como poderia importar-me? É bom saber que alguém se preocupa connosco.

- Sabes bem que me preocupo. A Mellie também.

- Como é que ela está? Bem?

Charlie fez um gesto afirmativo com a cabeça. Nunca havia tempo para aquele tipo de conversas no escritório.

- Está óptima. - Charlie começava a interrogar-se sobre a forma como iria conduzir a conversa para aquilo que de facto queria dizer-lhe. Não ia ser fácil, e talvez ela não reagisse bem.

- Então? O que é que se passa? - Subitamente, Samantha deu consigo a olhá-lo com ar divertido. Charlie fingiu uma expressão inocente e Samantha puxou-lhe pela barba. - Tens qualquer coisa na manga, Charlie. O que é?

20

O que te faz dizer isso? - Está a chover e um frio de rachar, é sexta -feira, podias estar em casa com a tua mulher apaixonada e os teus três filhos encantadores. É difícil imaginar que tenhas vindo até aqui apenas para tomar uma chávena de café comigo.

- Porque não? És muito mais encantadora do que os meus filhos. Mas... - Hesitou por instantes. - Bom, tens razão. Não passei aqui por acaso. Vim propositadamente falar contigo. - "Meu Deus, é horrível!" Como conseguiria dizer-lhe? Sabia que ela nunca entenderia.

- Então? Vá lá, deita cá para fora. - Havia um brilho travesso no olhar de Samantha que Charlie já não via há muito tempo.

- Bem, Sam... - Inspirou profundamente e olhou-a mais de perto. - O Harvey e eu estivemos a falar...

- A meu respeito? - Ficou instantaneamente preocupada, mas Charlie fez um sinal afirmativo com a cabeça e prosseguiu. Samantha detestava que as pessoas falassem dela. Porque a conversa era sempre acerca do modo como ela se sentia e do que John lhe fizera.

Sim, é a teu respeito.

Porquê? A campanha de Detroit? Não sei se ele compreende a minha ideia, mas...

- Não, não é acerca da campanha de Detroit, Sam. É a teu respeito.

- Acerca do quê? - Samantha achava que tudo acabara, não havendo já motivo para falarem dela. A separação e o divórcio já pertenciam ao passado e John casara com outra pessoa. Conseguira sobreviver a tudo isso. Portanto... - Estou óptima.

- Estás? Acho isso fantástico. - Charlie fixou-a, invadindo-o de novo alguma da raiva que sentira contra John. - Se estivesse no teu lugar, não conseguia sentir-me tão bem, Sam.

- Não tenho alternativa. Além disso, sou mais forte do que tu.

- Talvez sejas. - Charlie esboçou um leve sorriso. - Mas talvez não sejas tão forte como pensas. Porque não descansas durante uns tempos, Sam?

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Que queres dizer com isso? Que vá para a praia para Miami?

- Porque não? - Charlie forçou um sorriso e Samantha olhou-o com ar chocado.

- O que queres tu dizer-me? - O pânico tomou-lhe rapidamente conta do rosto. - O Harvey vai despedir-me? É isso? Mandou-te aqui no papel do carrasco, Charlie? Não me querem mais porque já não sou tão alegre como era? - Apenas a fazer perguntas, sentiu os olhos a ficarem marejados de lágrimas. - Meu Deus, o que é que tu esperavas? Passei por tempos difíceis... Foi... - As lágrimas começaram a sufocá-la e pôs-se prontamente de pé. - Estou óptima, bolas! Por que raio...

Charlie agarrou-a pelo braço e forçou-a a sentar-se com um olhar afável.

- Tem calma. Está tudo bem.

- Ele vai despedir-me, Charlie? - Uma lágrima triste e solitária correu-lhe pelo rosto.

Charlie Peterson abanou a cabeça.

- Não, Sam, claro que não.

- Então? - Samantha sabia. já sabia.

- Ele quer que vás descansar. já trabalhaste o suficiente na campanha de Detroit. O velho não morrerá se pensar em negócios durante uns tempos para variar. Podemos dispensar-te se tiver de ser.

- Mas vocês não têm de o fazer. É uma estupidez, Charlie.

- É? - Charlie olhou-a fixamente. - É uma estupidez, Sam? Consegues suportar esse tipo de pressão sem vacilar? Tens forças suficientes para ver o homem que te deixou por outra mulher todas as noites na televisão nacional a falar com a nova mulher e a barriga dela a aumentar? Consegues assistir a isso tudo impávida e serena? Sem faltares um único dia ao trabalho e continuando a querer ficar com todas as novas campanhas? Acho que vais acabar por rebentar mais cedo ou mais tarde. Como podes pôr a tua saúde em risco dessa maneira? Não posso admitir isso, como amigo. Aquilo que aquele filho da mãe te fez quase te deixou de rastos. Esquece o que se passou, vai curtir as mágoas para outro sítio, larga

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tudo e depois volta. Precisamos de ti. Desesperadamente. O Harvey, eu e o pessoal da contabilidade compreendemos a situação, e tu melhor do que ninguém... Porém, não te queremos doente, louca ou destroçada, que é como vais ficar se não te libertares da pressão.

- Achas que tenho um esgotamento, não é? - Samantha pareceu magoada e chocada, mas Charlie abanou a cabeça.

- Claro que não. Mas c'o a breca, isto já se prolonga há tanto tempo. É agora que tens de tratar da dor e não quando ela estiver demasiado entranhada que já não consigas dominá-la.

- Já vivo com ela há quatro meses.

- E está a dar cabo de ti! - Era uma afirmação terminante da parte de Charlie e Samantha não a negava.

- Então, o que disse o Harvey? - Os olhos de Samantha exibiam tristeza quando encontraram os do amigo. Tinha a sensação de ter falhado, de ter podido fazer melhor.

...

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